Tag Archives: Diogo Veríssimo

Um fogo que arde sem se ver

Comecei a escrever para este jornal há já mais de dois anos e entre as quase trinta crónicas que para aqui escrevi estão alguns dos melhores textos que já produzi. Por isso foi com naturalidade que decidi utilizar uma versão actualizada do artigo “A crise é verde”, que aqui publiquei há quase um ano, para me candidatar ao prémio de jornalismo ambiental organizado pela agência de notícias Reuters e pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Este prémio, que tem lugar a cada dois anos, já foi ganho por jornalistas de alguns dos maiores jornais mundiais, desde o inglês Guardian e o alemão Der Spiegel ao americano New York Times. Sabia por isso que a competição seria muito dura e ganhar quase impossível, mas quem não arrisca não petisca…

Este ano o prémio seria dado ao artigo que conseguisse mais votos através do website Facebook. A missão de cada autor era por isso, ao longo dos 30 dias que durou a competição, fazer uma grande divulgação do seu artigo na esperança de que os leitores se transformassem em votos. Lá embarquei então nesta aventura.
O primeiro passo foi contactar os grandes websites ambientais Portugueses, Naturlink e Greensavers, que prontamente de disponibilizaram a divulgar o artigo aos seus leitores. Depois vieram os contactos com as maiores Organizações Não-governamentais portuguesas ligadas ao ambiente. Desde a Quercus, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a WWF-Portugal, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) todas se disponibilizaram a apoiar esta iniciativa e a fazer divulgação do meu trabalho. Finalmente, e já que sou biólogo, contactei também diferentes núcleos de estudantes de biologia espalhados pelo país, com especial destaque para a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e até a própria Ordem dos Biólogos. Também dentro do meu campo profissional recebi incondicional apoio na divulgação da minha mensagem. Um apoio tão unânime como inesperado e a união do movimento ambiental Português por uma causa. Algo que não se vê tantas vezes como devia. Mas mais incrível ainda foi a dedicação de um grupo de amigos que durante os 30 dias de competição levaram o meu artigo aos quatro cantos de Portugal. Puseram horas e dias de trabalho por um obrigado e nada mais. Solidariedade desta é uma tão bonita como, infelizmente nos dias de hoje, rara.

A competição foi dura, com 162 artigos submetidos originários de 48 países. No final foram depositados mais de 26 000 votos durante os 30 dias de competição com vários dos artigos a conseguir reunir mais de 1000 votos, sem dúvida um registo impressionante. Mas depois de tudo dito e feito foi com um enorme prazer que registei 5352 votos, mais de um quinto do total. O meu artigo tinha sido o mais votado!
Na busca de um prémio tinha na realidade ganho dois. O primeiro, e menos importante, vai permitir-me ir à Coreia do Sul onde participarei no Congresso Mundial da Conservação da Natureza, uma grande reunião de especialistas mundiais onde se discutirá como melhor gerir os nossos recursos naturais. O segundo, e que guardarei para sempre, é o apoio e dedicação incondicional que recebi de tanta gente, alguns que mal conhecia ou com quem já não falava há anos, que de uma forma desinteressada decidiu investir o seu tempo para ajudar um amigo e compatriota a alcançar um importante objectivo profissional. A todos um enorme obrigado.

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Mais dinheiro que juízo

Conservação da natureza e bem-estar animal são coisas diferentes. Podem parecer semelhantes mas não são. Trabalhar para preservar as populações selvagens de elefantes pelo mundo é conservar a espécie. Gastar um milhão de euros para melhor as condições de vida de três elefantes é algo apenas relacionado com bem-estar animal. Confuso? Passo a explicar.

Um apresentador de televisão canadiano (ver foto abaixo) anunciou recentemente que ia doar cerca de um milhão de euros (!) para que três elefantes do Zoo de Toronto no Canadá, pudessem ser transportados de avião para um santuário nos Estados Unidos. Isto porque o Zoo de Toronto chegou à conclusão que não tinha as melhores condições para manter estes animais. À primeira vista isto pode parecer um acto louvável, mas na verdade é um desperdício quase obsceno. Ou não houvesse um autêntico massacre a acontecer do outro lado do mundo com estes mesmíssimos animais.

Desde o princípio do ano e só no Parque Nacional Bouba Ndjida nos Camarões, país da África Central, foram mortos mais de 300 elefantes por caçadores furtivos. Há fontes que falam de mais de 600. A situação chegou a tal ponto que o exército foi chamado a intervir. Nos confrontos que se seguiram e apenas nos mês de Março perderam a vida dois soldados. Por estas paragens não há milhões nem milhares para travar a caça furtiva. Um guarda-florestal ganha menos de 25 euros mensais, há falta de pessoal, de veículos, de rações alimentares e os caçadores furtivos tem armas em melhores condições. É aqui que os Euros fazem falta. É aqui que uma mão cheia pode fazer a diferença entre a vida e a morte para muitos destes animais.

Longe da vista, longe do coração, já dizia o ditado. E os elefantes parecem estar a ser vítimas disso mesmo. Enquanto três deles, vindos de cativeiro, recebem honras de realeza na América do Norte, onde o dinheiro abunda mas o juízo pelos vistos não, centenas de outros em estado selvagem são mortos em África, onde não há meios económicos para resolver a situação. Parece que um elefante nem sempre é um elefante.


Nós e os outros


Jumento no parlamento

Ser burro não é vergonha. Vergonha é querer fazer dos outros burros. E é isto mesmo que alguns dos nossos deputados andam a fazer. Segundo eles, fica dez vezes mais caro beber água da torneira do que beber água engarrafa. O governo tentou acabar com o Carnaval, mas aqui ao menos não faltou palhaçada.

Em 2010 o Parlamento consumiu 35 000 litros de água mineral, divididos por 48 000 garrafas e garrafões. Com o objectivo de cortar na despesa, que actualmente ronda os 8800€ anuais, e de produzir menos lixo, um deputado do PS apresentou uma proposta para a Assembleia da República passar a usar água da rede pública, como de resto já acontece por exemplo no Ministério do Ambiente. O custo do mesmo volume de água seria apenas 57€. Inexplicavelmente, a proposta foi chumbada.

Passado pouco tempo é apresentada uma proposta similar mas desta vez apenas para a comissão de Ambiente, uma das muitas comissões da nossa assembleia. A proposta foi de novo chumbada, mas com o Conselho de Administração a ficar encarregue de fazer um estudo sobre vários custos envolvidos nas várias opções de fornecimento de água. E se a história era até agora bizarra, ainda mais ficou. Esse mesmo estudo do Conselho de Administração argumenta que a água engarrafada custa 260 € mensais enquanto a da torneira custaria 2730 euros! Parece não fazer sentido. E não faz mesmo. Este valor estapafúrdio vem, segundo o Conselho de Administração da necessidade de incluir os custos de pessoal “para o enchimento, limpeza, colocação e arrume dos vasilhames”.

Note-se que a Assembleia tem já pessoal que se encarrega de encher, limpar, colocar e arrumar os copos, portanto não se percebe porque razão seria preciso contratar pessoal apenas para lidar com os novos jarros. Mas há ainda mais dados extraordinários relacionados com estes jarros já que o mesmo estudo estima que seja necessário comprar 360 (30 para cada comissão!) e que o preço seria 4680 € (ou 13 euros por jarro!). É extraordinário como nada neste estudo faz sentido.

Mas se em termos económicos a decisão do Conselho de Administração da Assembleia da República já não fazia sentido, o que dizer da referência da secretária-geral da Assembleia da República, Adelina Sá Carvalho que não a rede pública que abastece Lisboa não tem meios para “garantir quer na origem quer na distribuição água ‘bacteriologicamente pura’”. É suficientemente boa para os dois milhões de Portugueses que vivem na capital mas não para a senhora secretária-geral. Pena que não seja ela mesmo a pagar por estas “necessidades especiais”.

Numa altura em que parece haver cortes em tudo houve já claramente um corte acentuado no bom senso de alguns dos nossos parlamentares. Mas o triste nem é isso, o triste é eles acharem que estão acima da austeridade que impuseram a todos os outros portugueses. Afinal de contas ser burro não é vergonha, vergonha é querer fazer dos outros burros


Quando se ignora o futuro…

Autor: Biratan, Pará, Brasil


Urbanização

Em 2030 dois terços da humanidade viverá em cidades

 Autor: Jarbas Domingos de Lira Junior, Recife – PE – Brasil


Lá no fundo deste mar

Apesar de 12 pessoas já terem pisado a Lua apenas duas foram ao ponto mais fundo dos nossos oceanos. O facto de conhecermos melhor a Lua do que partes do nosso próprio planeta resulta da crença que o fundo dos oceanos era um deserto estéril. As 5600 espécies novas descobertas em águas profundas durante a última década mostram que isso é um mito.

Com 7 biliões de pessoas a viver no nosso planeta, há poucos lugares no nosso planeta onde nunca ninguém tenha estado. Resta uma última fronteira: o fundo do mar. O ponto mais profundo dos nossos oceanos, a fossa das Marianas, ao largo das Filipinas tem pouco menos de 11 000 metros de profundidade, o equivalente a mais de cinco vezes a altura da Serra da Estrela. A descida à fossa das Marianas foi tentada várias vezes mas apenas alcançada uma vez, em 1960, por dois oceanógrafos, um suíço e outro americano.
Apesar da falta de interesse generalizada na exploração do fundo dos Oceanos, esta descida assume contornos de raridade também pelos desafios que o meio impõe aos que a tentam. Mesmo na água mais límpida nenhum raio de luz penetra abaixo dos 500 metros. Isto faz com que no fundo dos mares reine a mais completa escuridão, o que justifica muitas das criaturas aqui encontradas serem totalmente brancas: onde não há luz não há cor). Depois há a pressão. No fundo da fossa das Marianas por exemplo a pressão chega a ser 600 vezes maior que à superfície, o equivalente a ter o peso de 48 aviões comerciais em cima! Em dúvida um ambiente bem hostil ao ser humano.

Mas a provar que o engenho humano (quase) tudo supera estão as mais recentes investigações submarinas que tem usado robots para investigar as incríveis maravilhas que se escondem no fundo dos nossos oceanos. Estas investigações têm levado a descobertas incríveis. Deste espécies de peixes transparentes a paisagens naturais que se desenvolveram na total ausência de oxigénio, esse condimento que até há pouco tempo pensávamos ser indispensável há vida. Mas lá por todas estas maravilhas naturais terem sido descobertas há pouco não quer dizer que não estejam já ameaçadas.

A descoberta da diversidade biológica que existe no fundo do mar é também acompanhada por um estudo dos diferentes minerais que ali existem. Esta análise tem revelado a existência de vários compostos com potencial comercial o que gerou o interesse de várias companhias mineiras. Como a grande maioria do fundo dos oceanos está dentro das chamadas “águas internacionais”, o que quer dizer que nenhum país tem direito exclusivo a elas, é praticamente impossível garantir que estes recursos não são explorados de forma destrutiva e por isso insustentável. O que é de todos para usar acaba normalmente por não ser de ninguém quando chega a hora de conservar. Algo que é verdade mesmo lá no fundo deste mar.


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