Tag Archives: Caça

Mais dinheiro que juízo

Conservação da natureza e bem-estar animal são coisas diferentes. Podem parecer semelhantes mas não são. Trabalhar para preservar as populações selvagens de elefantes pelo mundo é conservar a espécie. Gastar um milhão de euros para melhor as condições de vida de três elefantes é algo apenas relacionado com bem-estar animal. Confuso? Passo a explicar.

Um apresentador de televisão canadiano (ver foto abaixo) anunciou recentemente que ia doar cerca de um milhão de euros (!) para que três elefantes do Zoo de Toronto no Canadá, pudessem ser transportados de avião para um santuário nos Estados Unidos. Isto porque o Zoo de Toronto chegou à conclusão que não tinha as melhores condições para manter estes animais. À primeira vista isto pode parecer um acto louvável, mas na verdade é um desperdício quase obsceno. Ou não houvesse um autêntico massacre a acontecer do outro lado do mundo com estes mesmíssimos animais.

Desde o princípio do ano e só no Parque Nacional Bouba Ndjida nos Camarões, país da África Central, foram mortos mais de 300 elefantes por caçadores furtivos. Há fontes que falam de mais de 600. A situação chegou a tal ponto que o exército foi chamado a intervir. Nos confrontos que se seguiram e apenas nos mês de Março perderam a vida dois soldados. Por estas paragens não há milhões nem milhares para travar a caça furtiva. Um guarda-florestal ganha menos de 25 euros mensais, há falta de pessoal, de veículos, de rações alimentares e os caçadores furtivos tem armas em melhores condições. É aqui que os Euros fazem falta. É aqui que uma mão cheia pode fazer a diferença entre a vida e a morte para muitos destes animais.

Longe da vista, longe do coração, já dizia o ditado. E os elefantes parecem estar a ser vítimas disso mesmo. Enquanto três deles, vindos de cativeiro, recebem honras de realeza na América do Norte, onde o dinheiro abunda mas o juízo pelos vistos não, centenas de outros em estado selvagem são mortos em África, onde não há meios económicos para resolver a situação. Parece que um elefante nem sempre é um elefante.


Caça ao melro: Um não-problema

Primeiro podia caçar-se o melro. Depois deixou de se poder. Há quem cante vitória para os amantes da natureza. Eu acho que foi solucionado um não-problema. Resolve-se o acessório e ignora-se o essencial. Passo a explicar.

No dia sete de Abril foi publicada uma portaria que permitia a caça ao melro. Logo se ergueu uma campanha contra esta actividade, que contou com mais de 100 cartas enviadas à Ministra do Ambiente, um grupo no Facebook com mais 1500 membros e uma petição online de mais de 6000 assinaturas. Quatro meses depois a portaria foi revogada.

Foram várias as razões dadas para defender a proibição da caça ao melro. Afirmou-se que o enraizamento do melro na nossa cultura e a sua distribuição por todo o país faria dele num candidato a ave nacional. Mas o mesmo acontece com espécies cinegéticas como o pato-real, a rola ou a perdiz. Afirmou-se que devido à sua dieta e comportamento o melro não teria características de praga agrícola, e que existem métodos de espantamento eficazes. No entanto nas dúzias de artigos que li sobre este assunto ninguém se preocupou em ouvir o que os agricultores tinham a dizer. Afirmou-se que o melro tem uma população “estável ou com aumento moderado” não havendo por isso necessidade de controlar as populações. Mas este argumento pode facilmente ser interpretado como uma prova de que a caça ao melro pode ser sustentável. Afirmou-se que estando o melro associado ao meio urbano a sua caça iria levar ao aumento do número de acidentes. Mas existem já várias espécies amplamente caçadas associadas a meios urbanos, como o pato-real, e essa situação não se verifica. Em resumo, em termos factuais é difícil defender que a caça ao melro teria algum impacto sobre as populações desta espécie.

Mas o curioso vem a seguir: parece que na realidade ninguém quer caçar melros. Quem o afirma é Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça, que representa mais de cem mil caçadores. Ou seja, fez-se uma campanha para proibir a caça a uma espécie cujas populações parecem não só ter todas as condições para suster essa caça, mas que também ninguém estava interessado em caçar. Estamos perante um não-problema.

Entretanto, e enquanto andamos ocupados com os não-problemas, existem sim situações associadas à caça, já antigas, que tem um enorme impacto sobre a nossa fauna e que permanecem por discutir e resolver. Um deles é o saturnismo, causado pelo uso de munições de chumbo na caça às aves aquáticas. O chumbo acumula-se nas lagoas em grandes quantidades sendo ingerido pelos animais e envenenando-os lentamente. Estima-se que mais de metade dos patos portugueses possam já estar a ser afectados e que todos os anos morram mais um milhão de aves na Europa devido à ingestão de chumbo. Espanha e França já proibiram o uso de munições de chumbo na caça a aves aquáticas (algumas das quais com populações em declínio e mesmo ameaçadas de extinção).

É sempre positivo ver a sociedade mobilizar-se em torno de questões ligadas ao mundo natural. Mas é importante distinguir o que é relevante para a conservação e da nossa biodiversidade. Ao “embandeirar em arco” com estes não-problemas deixamos que desviem a nossa atenção dos problemas que realmente afectam a nossa fauna e flora. Porque mais vale um cidadão iluminado na mão do que dois ingénuos a voar.


O circo e as baleias

Parece que há quem não queira deixar a Islândia entrar na União Europeia (EU) porque neste país é legal caçar baleias. Eu, acho mal. E aqui para nós, ainda bem que só se lembraram disso agora.

O argumento usado é o de que as baleias estão em vias de extinção e de que é inumano caçar estes gigantes mamíferos marinhos. Vamos por partes. Falar em “baleias” é como falar em “pássaros” ou “peixes”: estes são nomes gerais de um grupo de animais e não de uma espécie em particular, ou seja há baleias e baleias. Das cerca de 50 espécies de baleia existentes, a Islândia só tem quotas de caça anuais para duas: 150 Baleias-anãs e 100 Baleias-comuns.

A baleia-comum é considerada uma espécie em perigo, mas apenas porque no hemisfério sul as populações foram muito reduzidas pela caça descontrolada das décadas de 50 e 60. No hemisfério norte estima-se que haja pelo menos 50 000 baleias-comuns. Já a baleia-anã, não é uma espécie ameaçada estimando-se que existem no mínimo 100 000 apenas no hemisfério norte. Assim o argumento da conservação das espécies parece neste caso fazer pouco sentido, e é perfeitamente lógico que a Islândia queira utilizar de forma sustentável os seus recursos.

Depois há o argumento da crueldade animal. Que faz ainda menos sentido. Como é possível que a EU considere a caça à baleia inumana mas depois permita que haja dentro das suas fronteiras, por exemplo, circos com animais selvagens? Tigres, elefantes, chimpanzés e hipopótamos são todas elas espécies em vias de extinção mas simultaneamente usadas em circos de vários países da EU (em Portugal felizmente a lei já foi alterada tornando o uso destes animais em circos proibidos). Contra isto a EU nada disse.

Mas ainda bem que só se lembraram disso agora. Senão Portugal com a sua pesca abusiva do bacalhau no Canadá, que quase conduziu a espécie a extinção neste país; e com as suas touradas, onde na maioria das vezes o animal morto não é sequer aproveitado (ao contrário do que acontece na caça à baleia), nunca teria entrado para a EU!

Haja coerência. E coragem para pôr a lógica e a ciência no centro das decisões tomadas em Bruxelas. Os europeus agradecem.


%d bloggers like this: