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Big Brother de aviário

Só quem ande distraído não conhece ainda o Zuzu e a Margarida, neste altura possivelmente o casal mais famoso do país. Estes poderiam ser nomes do nosso folclórico jet set, mas neste caso não são. O Zuzu e a Margarida são aves, mais precisamente falcões peneireiros. E o que faz estes peneireiros diferentes de todos os outros (e são muitos) que existem em Portugal? Estes decidiram construir o ninho numa floreira, do lado de fora da janela de um apartamento na Amadora, no meio de Lisboa. E foi aí que começou, ao estilo do nosso conhecido Big Brother, o mais recente reality show português.

O dono do apartamento em questão quis partilhar a sua experiência com o mundo e instalou uma câmara que transmite através da internet e para quem quiser ver, as 24 horas do dia-a-dia destes animais. Quando dormem, o que comem, quando lutam está agora visível ao mundo num fenómeno que está a mobilizar legiões de seguidores em Portugal mas também no estrangeiro. Mas a história não acaba aqui, já que o número de protagonistas do nosso reality show tem aumentado. Dos sete ovos postos nasceram sete pequenos falcões e mais de um mês depois seis deles continuam vivos e já prontos a ensaiar os primeiros voôs! Toda esta movimentação tem gerado muito interesse com os falcões a já terem mais de 14 000 seguidores e a serem seguidos por todo o mundo. Na Holanda por exemplo há escolas que seguem atentamente as aves e fazem trabalhos sobre as suas aventuras e desventuras.

Toda esta história mostra como a internet pode ser um instrumento poderoso na divulgação de informação. A nidificação de falcões, peneireiros e outros, no meio de cidades é algo que tem tornado frequente ao longo das últimas décadas e os falcões peneireiros são uma espécie comum no nosso país. Mas dê-se ao grande público a possibilidade de descobrir os segredos da vida destes animais e algo aparentemente banal torna-se mágico. Até há uns anos era tecnicamente complicado, para além de caro, conseguir o equipamento necessário para manter comunicações de vídeo pela internet. Mas actualmente com um punhado de euros é possível criar estas janelas abertas para o mundo e formar ligações entre, neste caso, aves e pessoas a dezenas, centenas ou milhares de quilómetros de distância. Seguramente que há muita gente em Portugal que sabe mais sobre falcões peneireiros (a começar pelo simples facto de que existem) do que alguma vez soube.
Mas mais do que motivar o grande público a aprender mais sobre aves em geral e falcões em particular, o Zuzu e a Margarida mostraram a muita gente que as nossas cidades estai vivas. Não são apenas betão e asfalto mas sítios onde com um bocadinho de boa vontade e planeamento alguma vida selvagem pode viver e sobreviver. Tem dúvidas? Perguntem ao Zuzu, à Margarida e aos seis pequenotes: a vida deles está disponível em http://falcao.novidades-de-encantar.pt/ e há quem diga que só lhes falta falar.

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Caça ao melro: Um não-problema

Primeiro podia caçar-se o melro. Depois deixou de se poder. Há quem cante vitória para os amantes da natureza. Eu acho que foi solucionado um não-problema. Resolve-se o acessório e ignora-se o essencial. Passo a explicar.

No dia sete de Abril foi publicada uma portaria que permitia a caça ao melro. Logo se ergueu uma campanha contra esta actividade, que contou com mais de 100 cartas enviadas à Ministra do Ambiente, um grupo no Facebook com mais 1500 membros e uma petição online de mais de 6000 assinaturas. Quatro meses depois a portaria foi revogada.

Foram várias as razões dadas para defender a proibição da caça ao melro. Afirmou-se que o enraizamento do melro na nossa cultura e a sua distribuição por todo o país faria dele num candidato a ave nacional. Mas o mesmo acontece com espécies cinegéticas como o pato-real, a rola ou a perdiz. Afirmou-se que devido à sua dieta e comportamento o melro não teria características de praga agrícola, e que existem métodos de espantamento eficazes. No entanto nas dúzias de artigos que li sobre este assunto ninguém se preocupou em ouvir o que os agricultores tinham a dizer. Afirmou-se que o melro tem uma população “estável ou com aumento moderado” não havendo por isso necessidade de controlar as populações. Mas este argumento pode facilmente ser interpretado como uma prova de que a caça ao melro pode ser sustentável. Afirmou-se que estando o melro associado ao meio urbano a sua caça iria levar ao aumento do número de acidentes. Mas existem já várias espécies amplamente caçadas associadas a meios urbanos, como o pato-real, e essa situação não se verifica. Em resumo, em termos factuais é difícil defender que a caça ao melro teria algum impacto sobre as populações desta espécie.

Mas o curioso vem a seguir: parece que na realidade ninguém quer caçar melros. Quem o afirma é Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça, que representa mais de cem mil caçadores. Ou seja, fez-se uma campanha para proibir a caça a uma espécie cujas populações parecem não só ter todas as condições para suster essa caça, mas que também ninguém estava interessado em caçar. Estamos perante um não-problema.

Entretanto, e enquanto andamos ocupados com os não-problemas, existem sim situações associadas à caça, já antigas, que tem um enorme impacto sobre a nossa fauna e que permanecem por discutir e resolver. Um deles é o saturnismo, causado pelo uso de munições de chumbo na caça às aves aquáticas. O chumbo acumula-se nas lagoas em grandes quantidades sendo ingerido pelos animais e envenenando-os lentamente. Estima-se que mais de metade dos patos portugueses possam já estar a ser afectados e que todos os anos morram mais um milhão de aves na Europa devido à ingestão de chumbo. Espanha e França já proibiram o uso de munições de chumbo na caça a aves aquáticas (algumas das quais com populações em declínio e mesmo ameaçadas de extinção).

É sempre positivo ver a sociedade mobilizar-se em torno de questões ligadas ao mundo natural. Mas é importante distinguir o que é relevante para a conservação e da nossa biodiversidade. Ao “embandeirar em arco” com estes não-problemas deixamos que desviem a nossa atenção dos problemas que realmente afectam a nossa fauna e flora. Porque mais vale um cidadão iluminado na mão do que dois ingénuos a voar.


Salvando o Soldadinho-do-Araripe

Estive recentemente no nordeste do Brasil a trabalhar num projecto de investigação que visa proteger o Soldadinho-do-Araripe,uma das aves mais ameaçadas do mundo. Para alguns resultados do projecto e informações sobre a espécie:

http://soldadinhodoararipe.blogspot.com/2010/11/pesquisa-revela-as-aves-mais-populares.html

Foto: Péricles Silva "Jesus"


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