Category Archives: Diogo Veríssimo

Burros & Companhia

Há muitas causas sociais e ambientais justas que merecem o nosso apoio, mesmo se em Portugal o cenário económico não permita a muita gente contribuir. Se calhar por isto mesmo, quando se procura apoio, pode haver a tentação de tentar justificar a importância da nossa causa de todas as maneiras e mais algumas. E aqui reside o problema.

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A Associação Burricadas e a Reserva de Burros uniram esforços para uma nova campanha de angariação de fundos com vista à criação de um Parque dos Burros, onde ficaram alojados 40 animais. Estes burros farão parte de um programa de terapia assistida com animais, uma técnica que já demonstrou ser eficaz na redução da ansiedade e no combate á depressão, entre outras. Esta é sem dúvida uma causa meritória e que merece ser apoiada. O que não se percebe no meio de tudo isto é a necessidade de apregoar este projecto como “um novo programa de conservação para proteger o burro, que é hoje em dia uma espécie ameaçada em Portugal” como se lê no website da campanha para angariar fundos para a iniciativa. Até porque isto não é verdade. Nem o burro doméstico é uma espécie ameaçada nem este programa tem nada a ver com conservação da natureza. Passo a explicar.

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O burro doméstico que existe pelo mundo, e portanto em Portugal, não é uma espécie diferente mas o resultado da selecção feita pelo homem ao longo dos anos a partir do burro-selvagem-africano. Á semelhança, por exemplo, do cão doméstico que teve a sua origem no lobo. Imagine que alguém quer abrir um canil para cães abandonados e afirma que assim vai salvar o lobo da extinção. Parece estranho, mas é exactamente o que este projecto apregoa pode fazer com os burros.

Os animais domésticos são o resultado da nossa selecção feita a partir de espécies selvagens e podem sempre ser recriadas se mantivermos as espécies selvagens que lhes deram origem. É bom que não se confunda a fonte com o jarro. Se todos os burros domésticos desaparecessem amanhã poderíamos recriá-los a partir dos seus familiares selvagens. Logo o número de burros doméstico em Portugal não é seguramente um problema de conservação da natureza. É verdade que o número de burros em Portugal está a descer e que em 2002 até foi reconhecida uma raça de burro nativa de Portugal: o burro-mirandês, que conta com cerca de mil efectivos. Mas não se misture as águas. Mais uma vez usando o exemplo do cão e do lobo isto apenas querer dizer que há nos burros o equivalente a um perdigueiro ou cão d’àgua português, e nada tem a ver com o lobo, a espécie que deu origem a todas as raças de cão doméstico.
Este projecto é sem dúvida um esforço meritório que não precisa destas invenções para merecer o nosso apoio. A César o que é de César, aos burros o que é dos burros.


Um fogo que arde sem se ver

Comecei a escrever para este jornal há já mais de dois anos e entre as quase trinta crónicas que para aqui escrevi estão alguns dos melhores textos que já produzi. Por isso foi com naturalidade que decidi utilizar uma versão actualizada do artigo “A crise é verde”, que aqui publiquei há quase um ano, para me candidatar ao prémio de jornalismo ambiental organizado pela agência de notícias Reuters e pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Este prémio, que tem lugar a cada dois anos, já foi ganho por jornalistas de alguns dos maiores jornais mundiais, desde o inglês Guardian e o alemão Der Spiegel ao americano New York Times. Sabia por isso que a competição seria muito dura e ganhar quase impossível, mas quem não arrisca não petisca…

Este ano o prémio seria dado ao artigo que conseguisse mais votos através do website Facebook. A missão de cada autor era por isso, ao longo dos 30 dias que durou a competição, fazer uma grande divulgação do seu artigo na esperança de que os leitores se transformassem em votos. Lá embarquei então nesta aventura.
O primeiro passo foi contactar os grandes websites ambientais Portugueses, Naturlink e Greensavers, que prontamente de disponibilizaram a divulgar o artigo aos seus leitores. Depois vieram os contactos com as maiores Organizações Não-governamentais portuguesas ligadas ao ambiente. Desde a Quercus, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a WWF-Portugal, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) todas se disponibilizaram a apoiar esta iniciativa e a fazer divulgação do meu trabalho. Finalmente, e já que sou biólogo, contactei também diferentes núcleos de estudantes de biologia espalhados pelo país, com especial destaque para a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e até a própria Ordem dos Biólogos. Também dentro do meu campo profissional recebi incondicional apoio na divulgação da minha mensagem. Um apoio tão unânime como inesperado e a união do movimento ambiental Português por uma causa. Algo que não se vê tantas vezes como devia. Mas mais incrível ainda foi a dedicação de um grupo de amigos que durante os 30 dias de competição levaram o meu artigo aos quatro cantos de Portugal. Puseram horas e dias de trabalho por um obrigado e nada mais. Solidariedade desta é uma tão bonita como, infelizmente nos dias de hoje, rara.

A competição foi dura, com 162 artigos submetidos originários de 48 países. No final foram depositados mais de 26 000 votos durante os 30 dias de competição com vários dos artigos a conseguir reunir mais de 1000 votos, sem dúvida um registo impressionante. Mas depois de tudo dito e feito foi com um enorme prazer que registei 5352 votos, mais de um quinto do total. O meu artigo tinha sido o mais votado!
Na busca de um prémio tinha na realidade ganho dois. O primeiro, e menos importante, vai permitir-me ir à Coreia do Sul onde participarei no Congresso Mundial da Conservação da Natureza, uma grande reunião de especialistas mundiais onde se discutirá como melhor gerir os nossos recursos naturais. O segundo, e que guardarei para sempre, é o apoio e dedicação incondicional que recebi de tanta gente, alguns que mal conhecia ou com quem já não falava há anos, que de uma forma desinteressada decidiu investir o seu tempo para ajudar um amigo e compatriota a alcançar um importante objectivo profissional. A todos um enorme obrigado.


Jumento no parlamento

Ser burro não é vergonha. Vergonha é querer fazer dos outros burros. E é isto mesmo que alguns dos nossos deputados andam a fazer. Segundo eles, fica dez vezes mais caro beber água da torneira do que beber água engarrafa. O governo tentou acabar com o Carnaval, mas aqui ao menos não faltou palhaçada.

Em 2010 o Parlamento consumiu 35 000 litros de água mineral, divididos por 48 000 garrafas e garrafões. Com o objectivo de cortar na despesa, que actualmente ronda os 8800€ anuais, e de produzir menos lixo, um deputado do PS apresentou uma proposta para a Assembleia da República passar a usar água da rede pública, como de resto já acontece por exemplo no Ministério do Ambiente. O custo do mesmo volume de água seria apenas 57€. Inexplicavelmente, a proposta foi chumbada.

Passado pouco tempo é apresentada uma proposta similar mas desta vez apenas para a comissão de Ambiente, uma das muitas comissões da nossa assembleia. A proposta foi de novo chumbada, mas com o Conselho de Administração a ficar encarregue de fazer um estudo sobre vários custos envolvidos nas várias opções de fornecimento de água. E se a história era até agora bizarra, ainda mais ficou. Esse mesmo estudo do Conselho de Administração argumenta que a água engarrafada custa 260 € mensais enquanto a da torneira custaria 2730 euros! Parece não fazer sentido. E não faz mesmo. Este valor estapafúrdio vem, segundo o Conselho de Administração da necessidade de incluir os custos de pessoal “para o enchimento, limpeza, colocação e arrume dos vasilhames”.

Note-se que a Assembleia tem já pessoal que se encarrega de encher, limpar, colocar e arrumar os copos, portanto não se percebe porque razão seria preciso contratar pessoal apenas para lidar com os novos jarros. Mas há ainda mais dados extraordinários relacionados com estes jarros já que o mesmo estudo estima que seja necessário comprar 360 (30 para cada comissão!) e que o preço seria 4680 € (ou 13 euros por jarro!). É extraordinário como nada neste estudo faz sentido.

Mas se em termos económicos a decisão do Conselho de Administração da Assembleia da República já não fazia sentido, o que dizer da referência da secretária-geral da Assembleia da República, Adelina Sá Carvalho que não a rede pública que abastece Lisboa não tem meios para “garantir quer na origem quer na distribuição água ‘bacteriologicamente pura’”. É suficientemente boa para os dois milhões de Portugueses que vivem na capital mas não para a senhora secretária-geral. Pena que não seja ela mesmo a pagar por estas “necessidades especiais”.

Numa altura em que parece haver cortes em tudo houve já claramente um corte acentuado no bom senso de alguns dos nossos parlamentares. Mas o triste nem é isso, o triste é eles acharem que estão acima da austeridade que impuseram a todos os outros portugueses. Afinal de contas ser burro não é vergonha, vergonha é querer fazer dos outros burros


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